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OLinux: Fale um pouco sobre sua carreira pessoal e profissional. Marcelo Branco: Trabalho há mais de vinte anos com a tecnologia da informação. Iniciei minha carreira profissional na EMBRATEL, trabalhando no centro de televisão e no multiplex de voz. Mais tarde me especializei em redes de transmissão de alta velocidade e sistemas ópticos. A partir da convergência tecnológica das redes de telecomunicações com as redes de dados convencionais comecei a atuar e pesquisar nesta área. Em 1997, fui convidado para trabalhar na PROCEMPA, empresa de informática do município de Porto Alegre. Fui responsável técnico pela construção de uma rede multi-serviços da prefeitura, que interligou os principais prédios do município e algumas universidades com fibras ópticas utilizando tecnologia ATM e IP. Atuei também como responsável num projeto de pesquisa, METROPOA, que visa implantar a Internet2 na cidade, testar aplicativos de banda larga, vídeos sob demanda em tempo real, gerenciamento de redes etc. Este projeto ainda está em andamento e com bastante sucesso nos resultados obtidos até aqui. OLinux: Quais são as suas responsabilidades na PROCERGS? Marcelo Branco: Em 1999 fui convidado para assumir a Diretoria Técnica da PROCERGS e atualmente sou o Vice-Presidente da empresa. OLinux: Como a PROCERGS é organizada? Dê-nos uma idéia de como a PROCERGS funciona (funcionários, hardware, software, etc.). Como o trabalho (desenvolvimento) é coordenado? Marcelo Branco: A PROCERGS é uma empresa de economia mista que tem o Governo do Estado do Rio Grande do Sul como principal acionista. Estamos tentando resgatar o papel desta "empresa pública" com a qualidade nos serviços que prestamos a comunidade. Temos 1.200 funcionários e uma receita anual de 110 milhões de reais que são integralmente reinvestidos na qualificação de nosso parque tecnológico (hardware e software), nos recursos humanos da empresa e, principalmente, na qualificação dos serviços públicos prestados pelo Governo do Estado. OLinux: Qual é a missão do PROCERGS e como tem sido sua evolução? Conte-nos um pouco sobre sua história do seu desenvolvimento? Marcelo Branco: A PROCERGS atua em três eixos principais: modernização administrativa do governo, auxiliar na democratização do Estado para a comunidade e através do VIA RS, o maior provedor de Internet do RS, na democratização das comunicações atuando em conjunto com a rádio FM Cultura e a TV Educativa. Nos últimos dois anos discutimos intensamente a mudança da plataforma tecnológica da empresa. Além do legado do mainframe, nossa opção de plataforma baixa era extremamente proprietária. Tudo estava sendo desenvolvido na plataforma Microsoft (VB, ASP, SQL, Windows e rede NT). Redefinimos que temos que construir uma plataforma independente, isto é, a linguagem de desenvolvimento, deve ter independência em relação ao banco de dados, o banco deve ser independente em relação ao sistema operacional, e este em relação a plataforma da rede e ao hardware. OLinux: Como a PROCERGS é mantida? Qual a porcentagem de investimentos privados e públicos? Marcelo Branco: 97% do investimento vem do Estado. Somos uma empresa cujo o maior investidor é o poder é público. OLinux: Que tipo de clientes utilizam seus produtos e serviços? Marcelo Branco: Além de sermos uma empresa de desenvolvimento de sistemas de informações, de projetos e operações de redes, somos também um provedor "comercial" de Internet. Fomos pioneiros na Internet comercial no RS. OLinux: Em que momento surgiu a disposição interna de começar a pesquisar e trabalhar com software livre? Marcelo Branco: Fiquei conhecendo a filosofia da comunidade do software livre através de dois amigos: Ronaldo Lages, funcionário da PROCERGS e Mário Teza, que trabalhava na época no SERPRO. O Mário Teza insistiu que a PROCERGS deveria puxar o movimento software livre pelo seu peso e pelo comprometimento do nosso governo com as mudanças. Apresentamos esta proposta na diretoria da empresa e foi aprovada. Montamos um GT (grupo de trabalho) para apresentar um projeto preliminar e buscamos o Mário do SERPRO para coordenar este trabalho. De lá para cá, as coisas foram ganhando uma dimensão bem maior do que imaginávamos. Hoje, estamos comprometidos e engajados neste movimento liderado pela Free Software Foundation e pelo CIPSGA no Brasil. Nossa empresa está participando e comprometida com a comunidade software livre. OLinux: Descreva a experiência da PROCERGS com os software livres até o momento. Marcelo Branco: No Estado temos algumas experiências importantes, resultados do "Projeto Software Livre RS". Mainframe do BANRISUL e terminais de acesso aos serviços do banco (ATM) usando o sistema operacional GNU-Linux, migração de vários servidores corporativos de Windows para GNU Linux, o VIA RS é um provedor de Internet com 51.000 assinantes que utiliza uma plataforma totalmente livre. Substituímos todos os pacotes Office da MS pelo StarOffice na PROCERGS e desenvolvemos o Direto (correio, agenda, e catálogo) numa plataforma livre e com a licença GPL. A UNIVATES Universidade do Vale do Taquari desenvolveu o SAGU (Sistema de Gestão Universitária), estamos implementando a informatização de 3.100 escolas públicas estaduais baseadas em software livre. Estes são os principais projetos. Muito ainda temos para fazer. OLinux: Na sua opinião, até agora, quais foram os principais projetos nesta área? Conte-nos alguns casos de sucesso referente a implantação do software livre pelo RS. Marcelo Branco: Temos vários casos de sucesso. O Direto GNU, da Procergs, os postos de saque do Banrisul usando GNU/Linux, o SAGU da Univates, o SIAM da CCA, que apesar de não ser livre roda em GNU/Linux, o uso de softwares livres nas escolas municipais de Porto Alegre através da Procempa, são os mais conhecidos. Breve estaremos lançando, em parceria com outras empresas, os seguintes projetos de gestão: Prefeitura Livre, Empresa Livre e Escola Livre. OLinux: Quais são os principais parceiros neste trabalho? Marcelo Branco: Empresas públicas, privadas, universidades e ONGs. OLinux: Qual tem sido o papel do Governo do Estado em relação ao apoio financeiro à PROCERGS para desenvolvimento e implantação de projetos com software livre? Quão decisivo tem sido este apoio? Marcelo Branco: O apoio político é total. Quanto ao apoio financeiro, também, se levarmos em conta que mais de 90% da receita da PROCERGS provêm dos cofres públicos e são estes recursos que estão financiando o projeto. Além disto, temos liberados recursos para pesquisa e desenvolvimento de software livre através da FAPERS. OLinux: Qual é o nível de comprometimento e interesse do Governos do RS com software livre? Há interesse na migração completa dos principais sistemas de informação do Estado para a plataforma livre? Marcelo Branco: Como já falei, estamos plenamente comprometidos com o movimento software livre. Migraremos durante a nossa gestão tudo o que tivermos condições de migrar, isto é, tudo aquilo que não tiver um aplicativo "amarrado" na plataforma proprietária. Sabemos que é uma tarefa difícil, mas o principal é que já começamos a migração e não desenvolveremos mais nada na plataforma proprietária. O correio corporativo, a suite ofice foi só o começo. OLinux: Com relação ao uso do software livre em desktops em repartições do governo: é possível quantificar o número de migrações para desktops? Marcelo Branco: Esta será uma segunda etapa: migração das estações de trabalho. Temos experiências localizadas na PROCERGS, Polícia Civil e BANRISUL. Chegaremos lá. Primeiro temos que resolver o problema do ambiente de desenvolvimento, pois muito aplicativos desenvolvidos ao longo dos últimos anos usam VB, ASP que amarram o sistema operacional das estações de trabalho no Windows da MS. Isto impede uma migração imediata. Temos atualmente cerca de 16.000 micros em rede e nossa estimativa é de chegarmos a 30.000 até o final de nossa gestão. OLinux: Como você vê a implantação do Linux no Brasil? Na sua opinião o que está faltando para que haja um maior emprego deste sistema operacional nas empresas nacionais? Considera que a principal barreira ainda seja a falta de cultura relacionada ao software livre ou seja a presença no Brasil e lobby das grandes multi-nacionais de software como a Microsoft? Marcelo Branco: A falta de cultura é um fator importante e temos que tratar. O lobby da multi-nacionais também é muito forte, vejam o caso da TBA com o SERPRO. Mas acho que estamos construindo uma estratégia de substituir as ferramentas de escritório proprietárias (Office e correio) por aplicativos livres. O StarOffice e o Direto são fundamentais para o avanço do software livre no Brasil. OLinux: As idéias relacionadas ao software livre tem sido difundidas há mais de 5 anos no Brasil. Porque a idéia do software livre não implacou em estados como RJ e SP ou mesmo dentro do Governo Federal, onde a economia com gastos em licenças de software proprietário seria na ordem dos bilhões de reais? Marcelo Branco: Estes governos não estão comprometidos com mudanças. A aprovação do projeto de lei do Deputado Walter Pinheiro da Bahia pode reverter este quadro. Temos que nos mobilizar para a sua aprovação! OLinux: A PROCERGS participou do evento de Software Livre no RS ano passado. Qual foi o retorno deste evento e principais conclusões? Marcelo Branco: O retorno foi muito bom. Tivemos 2.120 pessoas presentes e foi transmitido ao vivo pela Internet. Estamos colhendo o fruto deste avento. As principais resoluções estão em www.softwarelivre.rs.gov.br . OLinux: Algum outro grande evento programado para 2001? Marcelo Branco: Sim, já estamos na fase adiantada de preparação do II Fórum Internacional Internacional de Software Livre que acontecerá no final de maio em Porto Alegre. Em breve estaremos divulgando as principais atrações deste evento e toda a programação. OLinux: A PROCERGS apóia diretamente alguma organização ligada ao software livre no Brasil, como o Cipsga? Marcelo Branco: Sim. Atuamos em parceria com a CIPSGA em todos nossos projetos e articulações. Todos da comunidade devem fortalecer a CIPSGA, pois esta organização representa a Free Software Foundation no Brasil. A FSF é a principal referência internacional para o movimento. OLinux: Dê um recado aos usuários do OLinux que acaba de completar 1 ano de sucesso na Internet brasileira: Marcelo Branco: Parabéns pelo brilhante trabalho realizado até agora. Continuem nesta luta com a mesma dedicação empenhada até agora. O OLinux já faz parte da história pela independência tecnológica de nosso país. |
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